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Do meu livro novo: A Água de Melissa

Júlio Martins

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Um dia desses a Vó Betina comentava comigo sobre o primeiro poema que escrevi, mesmo não sabendo anotar. Ela dizia que estava preparando um chá para um casal de agricultores que sofria de pedras no rins, depois de terem cruzado o caminho das pedras. Lentamente, olhou-me e disse:

“Tens a sensibilidade legítima para a nossa sobrevivência, tens o que não tenho, tens a nossa vida, as plantas possuem a tua palavra em qualquer pedaço de papel”. 

Não entendi muita coisa, ou talvez tenha compreendido que eu desempenhava uma função importante no herbário, mesmo sem ter algum tipo de conhecimento medicinal.
Na maioria das vezes a lenha ficava a cargo da minha responsabilidade de conseguir. 

A irrigação acontecia diariamente. Chovia bastante em todas as épocas e o sol mantinha-se sempre em constante diálogo com as espécies. Fotossíntese e fotossíntese. Paraíso de muitas cores, a mistura dos cheiros alimentavam a alma daquela biodiversidade. O herbário era formado por canteiros longos e largos.

Recordo o rápido crescimento desse mundo, sendo que no início começou através de poucos montinhos de terra com espécies espalhadas, muitas vezes não venciam fazer as trocas respiratórias. Ainda tenho uma descrição dos meus primeiros contatos com a turbulência daquela mini-fabrica da vida vegetal:

“ Abri os pequenos olhos e diante dos aromas eu os imediatamente fechava, o perfume, o bálsamo, as essências que brincavam umas com as outras e ainda davam risada quando entravam em contato com a minha resposta sensorial. Fechava as janelas da visão, não queria enxergar, apenas sentir: sabia que eu poderia bem mais que isso sem erguer cílios para a minha paz interior”.

Parecia que o vento levava os passos ao encontro de uma entrega pela natureza. Sentia como se estivesse nascendo para alguém sem ter a responsabilidade de viver todos os dias.


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