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Por trás da chuva

Júlio Martins

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Faz dias que a chuva não sai da previsão da tela do meu telefone, igual ao primeiro amor depois de ir embora. A gente olha, olha, olha e nada atualiza. Nem mensagem, nem chamada, nem bug. Tudo igual com as releituras das últimas mensagens. As nuvens e os risquinhos embaixo...

Nesses dias, assim bem úmidos, molhados, falta de ânimo que não me escassa. As ideias ficam em encontros máximos com as sinapses e a vontade de ver algo inédito acontecendo é tudo de bom. Aí eu bato, bato, bato bem o café. Aí eu faço pipoca, passo café (de novo), escrevo um poema, aperto o F5 no MixCloud e finalizo a noite no Ableton, tentando mixar o som da chuva.

Dia de chuva quase nada de palavras me escapam da boca. As coisas dialogam através de uma câmera, uma crônica, um texto bem salgado e alguns amassos, sem muitas apalpações delicadas. Depois de um vinho, junto com a chuva, o mundo deságua.

Esses dias assim, gotejantes, vai dizer que a gente não pensa sempre em mudar alguma coisa? Parece que uma parte da nossa imaginação é ativada com a molécula da água e com isso gera uma conexão entre as células cerebrais até então inativas pela falta de água e cheiro de terra molhada.

Parece doido, né? Pois bem, na verdade pode ser que seja sim. Entrego essa inspiração alienada aos dias de chuva, aos milímetros de cada Agá Dois Ó que queda em cima da minha cabeça e me deixa assim, aguada, ops digo, amada e minhas roupas molhadas.

Quando volta a Si, ops digo o Sol, parece que o sonho acaba e a rotina renasce. Lavar roupas, abrir a casa, deixa-lo entrar, enfim... Solear a alma e dar uma trégua para os bolinhos de chuva. 

Mas a chuva... Essa oxigena a vida também e faz com que as coisas, todos os dias, se transformem. Por exemplo, as poças que se formam e os desvios que fizemos para não falsear numa delas, que transtorno, ops digo, transformo. 


Dia de chuva é assim, tem gente que dorme o dia inteiro e outros saem da casinha. Ops digo, casinha. 

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