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Uma dor engavetada

Júlio Martins

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Terça-feira com aquela neblina sobre um dia nevoado em tons de cinzas. Parecia tudo na mesma lenga-lenga, coisas da vida comum, despertador, café da manhã, amanhecer da rotina... Comecei a rolar a minha time line com o dedão, sem muito sentido de saber o que interessaria ler, ver, comentar e... Curtir! Sei lá, as coisas já se vestiam num automático em passar sobre meus olhos o fato do óbvio de viver.

Foi quando, cruzou minha leitura inconsciente um texto ou desabafo, um conto, talvez... Ah, nem a própria escritora pensou em definir algo tão exatamente do que seria: uma autobiografia ou uma coisinha...

Pronto! Aquelas palavras pegaram meu casaco, calcei lentamente minhas luvas de outono ou inverno e abrindo a gaveta delimitei um lenço envolvendo o pescoço.

As palavras inicias do texto de Bruna: “Ossos quebrados”, essas ai que acredito que me quebraram de vez. Mesmo assim, seguia firme, intacta... Até que no final da coisinha escrita por ela, um imagem provocou um tormento com as minhas coisinhas internas.
Diante disso, a vida trincou os meus batimentos do coração, irradiando um eco roco, distorcido com efeito reverb bem lento. Dentro da corrente sanguínea, dando choques em minha dor...

Mas qual seria a dor que Bruna escreveu?

Pra encerrar o texto dela, havia uma imagem ilustrada por Júlia Girardi, que Bruna chamou de linda. Risos! Causando-me febre e pós-febre.

Voltando às correntes, aos ossos, às gavetas... A dor ecoou tão fortemente dentro do meu corpo que seu último timbre esvaiu pela boca e casou tremores nos lábios.

Aí de repente, a gaveta até então aberta, fechou-se e assim produzindo uma frequência tão viva que acreditei ter achado a cura para minha dor, aprisionando-a e livrando os órgãos exaustos de tanta moléstia.

A gaveta começou a inflar rapidamente concomitante com o som reverb roco dentro das minhas cordas coronárias. Meus olhos ficaram atentos na expectativa de um big bang, de uma libertação em massa. Até que a gaveta estourou e uma corda que parecia de violão saiu com ela, escapando pelo vão da janela entreaberta...

Lá fora caía pingos e a corda começou a produzir sons na medida em que as moléculas de água tocavam seu corpo. Quando a chuva tomou força, eu pude relaxar o coração numa melodia profunda e leve, observando a minha dor ser transformada em música, em chuva, em tempo.

Abaixo a imagem de “Júlia Girardi” que ilustrou a inspiração de Bruna e depois a minha. 



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