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Uma noite na Estação!

Júlio Martins

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E que noite...!

Duas da madrugada, meus pés serviam pequenas passadas pelas ruas e o pensamento tentando encontrar alguma coisa útil que me levasse ao prazer e ao riso, por alguns instantes. Noite gelada de 4 graus abaixo do Zé. Um vento congelante cortava meus lábios em fiapos desiguais. Uma cidade deslumbrante e merecedora de um acontecimento noturno e arrebatador, histórico.

Quando sai do hostel, disse às meninas que voltaria apenas para o café da manhã. Escutei sussurros por trás das minhas orelhas e uma olhada de choro da Wilaa O’ invadiu meus olhos de água. Sabíamos do que se tratava e isso nos mutilava todas as vezes que eu saía sem olhar pra trás.

A fumaça que saía da chaminé na Estação de Dunedin fazia círculos em direção ao céu e isso me causou um abalo térmico emocional precipitado. Aproximei-me da janela e fiquei na ponta dos pés tentando achar alguma coisa ali dentro. Encontrei um furo na cortina e o meu olho se encaixou direitinho. Dei um zoom e... Pois é, meu corpo derreteu junto às lascas de lenha que ardiam em 100 graus naquela lareira.

Ele segurava uma taça de vinho, de pernas entrelaçadas, a mão esquerda fazia cafuné no gato e sobre suas pernas, uma história em quadrinhos. A TV estava ligada, ele mais assistia do que lia, ou apenas ouvia e não via nada. Seu corpo estava sem expressões e os lábios bem untados e largos e lindos e cheios e tudo, metalizados.

Suspirei e o gato ouviu, inclinando seu pescoço em direção à janela. Ele desligou a TV  e colocou a taça sobre a mesa de apoio e desapareceu. Meu coração deu pulos de 140 BPM e as mãos começaram a suar. Mantive-me firme na ponta do pé. Foi quando senti uma presença quente em minhas costas e um arrepio na cervical.

- Boa noite, mocinha. O que está fazendo? (Disse Ele).
- Oi, oi, oi. Ah, eu estou com muito frio e ficou muito tarde pra ir caminhando até o hostel. Estou atrás de calor, de fogo, de bebidas quentes, de pessoas, de gato, de gata...

- Teus lábios estão em cores frias, venha, vamos entrar! A Estação está fechada e eu me sentindo só.

Não sei o que fiz nem o que estava fazendo, mas entrei numa fria, ops digo, numa quente, eu acho que... A bebida da Estação, a lenha, a palha, as coisas!


CONTINUA na próxima sexta! Uhuuuu! 

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