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Uma noite na Estação: FINAL.

Júlio Martins

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Depois que tomamos umas quatro taças de vinho, as nossas vozes começaram a tropeçar em palavras soltas.

- Mas e aí, mocinha vamos nos apresentar?

- Sou... Ah, sou a Catarina do leste da cidade, tenho admiração pelo inverno, bebidas fortes e casacos que arrastam no chão.

- Prazer, Catarina. Sou o César da Estação de... O que lhe trouxe até mim?

- Eu tenho várias dúvidas, incógnitas, mistérios e uma parte de mim totalmente sem nada. 

Parece que alguma coisa vai acabar. Um livro, talvez. Uma inspiração... Desde que comecei a escrever uma autoficção pensada, a vida perdeu um pouco de graça. Sinto-me solta nas páginas dos livros, sem miolo e um sumário para buscar o que possa me interessar. Perdida, desorientada entre tantas coisas a se fazer em vida. São muitas que gostaria de completar alguma, apenas uma até o capítulo final.

- Sobre o que escreves?

- Que estaria andando sem pontos cardeais e de repente caio numa sistema solar e um toque em qualquer parte de mim, sujeitaria a sentir arrepios, tremores, desejos, suores e... Que de repente esse toque, segurasse firme outros toques numa sequência que terminasse com a buzina do trem e um sol entre as cortinas.

- Ousada, não? Isso é o que escreves ou que desejas num presente instante?

- Ah? Não, não... Que presente instante? Estás confundindo as taças de vinho?

- Por acaso não gostaria de escrever um pouco, agora? Pois tenho que descansar, as horas de sono estão diminuindo a cada palavra que pronuncia. Tem vinho, lascas, cobertores e essa máquina de escrever. Ah, o café da manhã da Estação muito aconchegante.

- Não estou inspirada, precisava mesmo era de uma boa conversa que me levasse a conhecer o fim de uma história. Difícil acreditar que tudo tenha fim, não é? Os amores, as poesias, a vida... Enfim, vou embora. Obrigada pela misteriosa recepção.

- Catarina, vamos deitar. Deixe de papo melodramático, a vida já é um drama diário para ficar criando ainda mais situações. Não quer escrever, pois não escrevas. O que desejas, então, antes de ir embora?

- Desejo que começamos com um abraço, depois uma cafungada no pescoço, posterior um suspiro com os lábios encostando em nossas peles.

- Céus? Olha, mocinha... Tá, tá, tá... Já chega por hoje. Acabou o vinho, a cidade dorme e o silêncio é precioso nesta madrugada. É melhor que vá embora mesmo, isso. Vá embora...

- Não sentes nada por mim? Nenhuma vontade de me beijar dobra teus lábios, agora?


- Depois do beijo, Catarina, a vida terminaria nesta madrugada... Não sou eu quem vai inspirar tuas histórias de autoficção pensada. Precisa dar vida aos teus personagens? Sugiro que viva sem precisar contar a história a mais ninguém. Desculpa, mas o protagonista não sou eu, é a vida por si só. Volte amanhã pra gente conversar!

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